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:: A ditadura dos mercado? Um outro mundo é possível ::

A ditadura dos mercados?
Um outro mundo é possível

Encontro mundial da ATTAC
Paris, de 24 a 26 Junho

Mais de mil participantes, vindos de todos os continentes, reuniram-se em Paris no final de Junho em resposta a um apelo da ATTAC e de outras associações similares. A convite do Sindicato francês dos professores do ensino superior, também o departamento do ensino superior da Fenprof esteve presente. Aí foram debatidas experiências, problemas e alternativas políticas, culturais e económicas ao mundo dos nossos dias. Trinta secções funcionaram durante três dias, discutindo-se temas como a globalização, a crise económica, a criminalidade financeira, os problemas da dívida externa, os problemas das minorias, da posse da terra, dos recursos naturais, das formas de comunicação alternativa, das questões dos saberes e do ensino.

Estes encontros foram a expressão da internacionalização da ATTAC (Associação para uma Taxação das Transacções financeiras para Ajuda aos Cidadãos). Esta associação, nascida num desafio lançado por Ignacio Ramonet no Le Monde diplomatique de Dezembro de 1997, e a que imediatamente responderam muitos sindicatos, associações e outras publicações em França, partia de alguns pontos de convergência de que destaco três: 1 - a necessidade de uma posição de ruptura com a cultura política hegemónica do ultra-liberalismo; 2 - a ideia de que existe uma vontade generalizada de mobilização contra o actual estado de coisas; 3 - a necessidade de divulgação de alternativas credíveis ao actual panorama económico mundial. Em breve a rede ganhava expressão internacional.

A plataforma adoptada há pouco mais de um ano (3/6/98) começa por uma crítica: "A mundialização financeira agrava a insegurança económica e as desigualdades sociais. Contorna e rebaixa as escolhas dos povos, as instituições democráticas e os Estados soberanos que têm a seu cargo o interesse geral". A possibilidade de os mercados financeiros, e em particular os mecanismos especulativos, poderem determinar, contra a vontade expressa pelas populações, os rumos das políticas económicas, poderem determinar sacrifícios injustificados e criminosos, levarem a fenómenos massificados de exclusão e de empobrecimento do planeta é um problema de toda a humanidade. E, no entanto, a proposta concreta que mobiliza uma grande parte da acção não é uma proposta revolucionária. A taxa "Tobin" (assim conhecida por partir de uma proposta lançada nos anos 70 por um economista americano, o prémio Nobel de 1981 James Tobin) corresponderia à aplicação de uma taxa quase simbólica (0,05% por exemplo) a todas as transacções financeiras. Uma tal taxa, que não afectaria as transacções de médio e longo prazo, pesaria mais sobre as transacções de curto prazo constituindo um "fundo de coesão" a nível mundial.

Ao seguirmos os trabalhos das secções verificamos, entretanto, que as preocupações dos encontros vão muito para além da aplicabilidade de uma só proposta concreta. A primeira dessas preocupações era a troca de experiências. Assim se puderam ouvir os testemunhos dos "sem terra" brasileiros, dos desempregados franceses, de professores do Senegal, do Benin, do México ou da Argentina, de antigos prisioneiros políticos de Marrocos e da Indonésia. Trocaram-se pontos de vista sobre os problemas da comunicação, sobre a utilização dos meios tradicionais, nomeadamente a rádio e a imprensa, e as experiências concretas da utilização da Internet pelos movimentos sociais. No âmbito da educação, foram fortemente criticadas as políticas de desinvestimento público, patrocinadas pelo Banco Mundial, e referidas diversas formas de luta actualmente em curso.

Algumas discussões foram particularmente vivas: deve-se propor a reforma das instituições financeiras internacionais ou deve-se trabalhar para a construção de alternativas? Deve-se apoiar incondicionalmente a anulação das dívidas externas dos países mais pobres ou, pelo contrário, deve-se associar tal iniciativa à satisfação de reivindicações dos movimentos democráticos existentes nesses países? Rapidamente se passava da resposta à urgência provocada pela exclusão crescente para a discussão de perspectivas políticas de maior fôlego. A discussão não ficou fechada. Mas a própria realização dos encontros foi uma forma de cumprir a plataforma da ATTAC: "reconquistar os espaços perdidos da democracia em favor da esfera financeira", "reapropriando-se, em conjunto, do futuro do nosso mundo."

 





 

 

   
 
   
 
   
   
   

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